"Muito além das aparências" - texto do professor Carlos Zacarias

Muito além das aparências (A Tarde, 27/04/2018)

Carlos Zacarias de Sena Júnior (Professor do Departamento de História da UFBA)

Após algumas semanas de iniciados os cursos sobre “O golpe de 2016”, o tema volta à pauta. Através de editoriais de grandes jornais e de articulistas que permanecem insatisfeitos com o fato de que os docentes se valem da Constituição para oferecerem as disciplinas, os adversários do conhecimento resolveram voltar a atacar o que consideram “proselitismo partidário”. Ofertados a partir de disciplinas da área de Humanas, tais cursos continuam produzindo notícia nos grandes jornais pelo simples fato de que tem atraído milhares de pessoas por todo país e curiosidade internacional. Para se ter uma ideia, o curso da UFBA, iniciado no último dia 5, arrastou uma multidão à FFCH. Nas duas aulas seguintes, a audiência permaneceu alta, tanto presencialmente, quanto nas transmissões pela internet, já sendo contabilizadas 45 mil visualizações. Para o bem ou para o mal, o fato é que o interesse pelo tema configura a incontornável necessidade de a universidade seguir refletindo sobre os desdobramentos do golpe, ao mesmo tempo em que a notícia produzida gera a busca de informação e aprofundamento.

Todavia, o coro dos descontentes não dá trégua. Como parte da coalizão golpista, setores da imprensa se esmeram em tripudiar sobre iniciativas que questionam seu papel na história recente do país, acreditando que uma eventual imposição do silêncio pode lhe proporcionar absolvição na posteridade. Acontece que a história não se faz apenas na medida dos interesses ditados pelos poderosos ou pelos que detém o monopólio da fala, como o supõe a Folha de S. Paulo. O jornal, após atacar a disciplina na UnB em fevereiro, recusou-se a publicar um texto-resposta redigido por docentes da Unicamp, algo que só veio à público esta semana, através da Revista Fórum.

No último dia 22, em novo editorial na Folha, Otávio Frias Filho considerou a liberdade de ensinar “ampla o bastante para autorizar muito disparate” e concluiu: “O militante pode gritar ‘golpe!’ com a legitimidade de quem está engajado na luta política, mas o historiador obedece a outro tempo, outros critérios”. Desconhece o empresário que cabe ao historiador “arrancar a tradição ao conformismo”, como diz Benjamin, pois é, também, no estabelecimento das narrativas que as verdades se afirmam, num permanente diálogo entre presente e passado.

No momento em as Humanidades sofrem ataques e docentes são ameaçados nas redes sociais por grupos de haters, defender o livre exercício do conhecimento é uma atitude revolucionária e isso apavora os reacionários. Apenas porque são capazes de explicar em profundidade os acontecimentos, indo muito além das aparências, historiadores, politólogos, sociólogos e outros profissionais tornam-se perigosos para o projeto entreguista vitorioso em 2016, por isso precisam ser calados. É o golpe em sua essência e toda a contrapartida é, acima de tudo, resistência pela democracia.